Distraída, eu andava no meio da rua, chutando pedras soltas, respirando ares novos, quando passa por mim uma senhora, muito idosa, conversando com uma menina que não devia passar dos três anos. Como sempre desligada, peguei três ou quatro palavras pelo ar..."eu ainda tenho esperanças"
Ora,pensei, esperanças!
Duas coisas concluí. Eu ainda tenho esperanças, e a Velhinha ainda tem esperanças, a criança que a velha arrastava pela mão também parecia ter esperanças. Mas, aonde foi que uma só palavra nos uniu daquele jeito? o que faz com que eu, a criança e a Velha possamos usar a mesma palavra com tanta facilidade além dos caprichos desse português?
Remoí e remoí, e foi remoendo essa palavra que cheguei em casa. Abri o meu velho companheiro de dúvidas e vi o significado dessa palavra que tanto me fez pensar naquela tarde fria de inverno em São paulo:
es.pe.ran.ça sf (de esperar)
1 Ato de esperar. 2 Expectativa na aquisição de um bem que se deseja. 3 Aquilo que se espera, desejando. 4 A segunda das três virtudes teologais, simbolizada por uma âncora ou pela cor verde. 5 Entom Nome comum a vários gafanhotos, da família dos Tetigonídeos, os quais possuem asas anteriores verdes, antenas setáceas, geralmente muito mais longas que o corpo. Apresentam o fenômeno do mimetismo. Antôn (acepção 1): desespero. E. em verde: esperanças de realização duvidosa. Andar ou estar de esperanças: estar no período da gravidez. Dar esperanças: a) incentivar as aspirações de alguém; b) dar mostras de vir a ser distinto em alguma coisa.
Agora me digam:
o que une EU, Uma velhinha, Uma criança, e os gafanhotos da família dos Tetigonídeos, verdes e de pernas compridas?
Uma única palavra: ESPERANÇA.
Esperança de que um dia possamos conviver em um mundo tranquilo, onde os gafanhotos não sejam obrigados a deixar seus bosques tranquilos para fugir do desmatamento e conseguir se alimentar e a Velhinha seja obrigada a deixar sua casa no centro e fugir para algum bosque tranquilo para fugir da Violência.
Esperança de que eu possa fazer alguma coisa para incentivar aquela menina a quebrar o círculo de desigualdades e de preconceito que ela terá que enfrentar, quando decidir arrumar um emprego.
Esperança de que os nossos governantes não se escondam na ânfora verde, a esperar que as mudanças tÃo esperadas (e esperançosamente desejadas) caiam do céu.
Esperanças sim, mas não só elas, por que desejar é a metade, a outra metade é ação...